Os ensinamentos que o mentor de Guardiola deixou ao passar pelo Flamengo



Abril de 2018. Num hotel de Fortaleza, o assunto do jantar da delegação do Flamengo era Lucas Paquetá. Recuado por Maurício Barbieri para a função de segundo volante ele fora, na avaliação da comissão técnica e de muitos analistas, um destaque na vitória sobre o Ceará. O consenso, no entanto, seria quebrado instantes depois.


“Para mim, ele foi o pior em campo”, interrompeu, com uma sinceridade cortante, uma voz em espanhol: Juan Manuel Lillo, anunciado nesta semana como novo assistente de Pep Guardiola no Manchester City.

Quem estava certo? Todos, possivelmente. E esta foi uma das grandes lições de uma semana de convivência entre técnicos e coordenadores do Flamengo e um dos grandes pensadores do jogo no mundo.

A discordância fala sobre o poder das ideias. Tanto Barbieri quanto Lillo buscam times donos da bola, ofensivos, mas de formas distintas. Paquetá movera-se para buscar a bola em diferentes pontos do campo. Mas Lillo é um fundamentalista e talvez o maior ideólogo do “Jogo de Posição”, que prega que os jogadores devem ocupar suas posições até que um circuito de passes os faça receber a bola em boas condições. Ideias são a fundação que edifica um time. Ao julgar ou mesmo buscar um treinador, é preciso entender o que ele pensa.


O Flamengo buscava novas metodologias e queria um coordenador técnico. Lillo mergulhou na intimidade rubro-negra, da base ao profissional. Mostrou seu estilo direto, impositivo na visão de alguns. Retrato de um homem que crê cegamente no modelo de futebol que abraçou, na posse de bola, na ocupação racional dos espaços. A experiência lhe mostrou que o futebol não tem só uma receita, mas é incisivo ao defender seu jeito de ver o jogo. “Acredito mais nisso”, repetia no Ninho do Urubu.

“Pode doer um pouco em quem tem algum melindre. Mas se você for de cabeça aberta, é um aprendizado gigante, intenso, 24 horas falando de futebol”, diz o então gerente Marcos Biasotto.


Tão obsessivo com o jogo é Lillo que, ao ver Diego Alves, deu a ele uma coletânea de vídeos de saídas de bola através do goleiro e exercícios para aperfeiçoar o modelo. “Ele tem métodos para treinar cada aspecto do modelo dele”, recorda Barbieri, com admiração.

À época, nem todos no clube tiveram a mente aberta ao jeito Lillo de ser. Uma perda, sem dúvida. Mas também é fato que o Flamengo pensava num modelo mais híbrido, alternando posse e um ritmo mais vertical em direção ao gol — ainda que com certa dose de acaso, encontrou em Jorge Jesus.


O fato é que a imersão de Lillo é algo que o futebol brasileiro deveria fazer mais. Abrir-se, beber na mesma fonte de alguns dos principais técnicos do planeta. Já no fim de carreira, Guardiola, então um projeto de técnico, foi jogar no interior do México apenas para ser treinado por Lillo. Sampaoli, quando quis ampliar o repertório de sua frenética seleção chilena, chamou Lillo para trabalhar posses mais longas, pausas. Mas como explicar um guru sem resultados como técnico?

Este fascinante personagem nos lembra que ser treinador exige uma complexa mistura de capacidades, que vão além do entendimento tático: gestão de pessoas, relações públicas, psicologia... Em Manchester, provavelmente poderá se dedicar mais a pensar o jogo, sua especialidade. E com Guardiola, desfrutar de um encontro de ideias.


Fonte: https://oglobo.globo.com/esportes/os-ensinamentos-que-mentor-de-guardiola-deixou-no-flamengo-24475196

Curta nossa Página




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Jornalista indica “oportunidade espetacular” para reforçar a zaga do Flamengo: “Paulo Sousa gosta dele”

Confira a dívida dos Clubes brasileiros segundo balanços 2016

Com título da Copa do Brasil, Flamengo se garante na Libertadores 2025, veja classificados