Sonho de moleque e o complexo caminho de Vitinho: da favela para o Botafogo até o Flamengo
Caminho complexo. Dos R$ 2,40 gastos diariamente com o ônibus que o levava da favela do Alemão, na zona norte do Rio, a Marechal Hermes, aos R$ 40 milhões que o Flamengo pagou para colocá-lo num avião que o trouxe da Rússia, Vitinho, em sete anos, realizou sonhos "de criança" e "de moleque".
- Era um sonho desde criança jogar como titular. Quando jogava, atuando bem, foi muito legal ouvir a torcida gritar meu nome. Nunca tinha acontecido na minha vida, fiquei muito feliz - disse Vitinho no início de 2013, após sua estreia como titular do time profissional do Botafogo, na goleada por 4 a 0 sobre o Audax Rio, clube que o revelou.
- É um sonho de moleque de verdade. Sempre disse para minha família que um dia jogaria no Flamengo. Graças a Deus, esse dia chegou. Estou louco para jogar, estrear, botar isso para fora e dar alegrias ao torcedor - disse Vitinho em 30 de julho de 2018, na apresentação no Flamengo.
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Vitinho com o Flamengo na cabeça desde pequeno: o nome victor e o CRF — Foto: Arquivo Pessoal
O barulho dos tiros que assustavam Vitinho e família no Complexo do Alemão deu lugar ao dos cliques e flashes. O "passaporte" de cidadão do Alemão que despencava para Niterói (o Botafogo passou a treinar no Caio Martins), com escala na Leopoldina, hoje tem carimbos das mais variadas nações.
Em 2013, Vitinho deixou o Brasil rumo ao CSKA, da Rússia, ano em que se tornou a venda mais cara da história alvinegra: R$ 31 milhões. Não houve sequer negociação. Os russos pagaram a multa e levaram a joia.
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Cara de moleque e vontade de brilhar: do Botafogo, Vitinho seguiu seu caminho para a Rússia, no CSKA — Foto: Arquivo pessoal
Quando dava seus primeiros passos como profissional com a camisa do Botafogo, Vitinho marcou no clássico contra o Flamengo
Carioca, Vitinho fez caminho incomum para chegar ao clube de coração. Surgiu em um rival e deu a volta ao mundo até retornar ao Rio de Janeiro como contratação mais cara da história rubro-negra: cerca de R$ 40 milhões.
Para traçar a complexa caminhada do atacante do Botafogo ao Flamengo, adversários neste sábado, às 19h, no Nilton Santos, o GloboEsporte.com conversou com o pai do atleta, com Anderson Barros, dirigente que fechou a contratação do atleta em 2011, e Jair Ventura, hoje no Corinthians e comandante do atacante na base do Glorioso.
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Vitinho na chegada ao Flamengo. "Sonho de moleque" — Foto: Gilvan de Souza / Flamengo
Contratado por empréstimo junto ao Sendas (hoje Audax Rio) no início de 2011 com direitos econômicos fixados em R$ 250 mil, o garoto respondeu em campo rapidamente, e o Botafogo decidiu comprá-lo com a mesma velocidade. Mas, assim como hoje, faltava dinheiro. Entrou em campo o papo do diretor de relações internacionais do clube, Bernardo Arantes.
- Na época, não tínhamos recursos. Bernardo Arantes ajudou nessa conversa com Marco Antônio Tristão, que nos ajudou e emprestou dinheiro para que o Botafogo adquirisse o Vitinho em definitivo. A participação dos dois foi muito mais importante do que a minha. Eu apenas ajudei na consolidação administrativa e financeira daquela operação, feita ainda na base - conta Anderson Barros, atual gerente de futebol do clube e que ocupava o mesmo cargo na ocasião.
O empréstimo deu a Marco Antonio direito a 28% (R$ 8,7 milhões) dos R$ 31 milhões oriundos da venda ao CSKA.
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Vitinho neném com uma bola. Futebol foi paixão desde criança — Foto: Arquivo pessoal
Jair Ventura narra a transição para o time profissional e revela papo decisivo
Hoje técnico do Corinthians, Jair Ventura treinou o sub-20 no processo de formação no Botafogo. Em 2012, deparou-se com um jogador diferenciado, ambidestro e de finalização fácil. Mas o pupilo passava por uma frustração após subir, não ser aproveitado e retornar à base.
- Ele desceu um pouco desmotivado e triste, porque não teve muitas chances. Pensei: “tenho que recuperar esse jogador pela qualidade dele”. Nos jogos, a parte técnica dele sempre resolvia. Ele driblava e arrastava todo mundo, fez belos gols de fora da área. Mas faltava um pouco na parte tática. Jogávamos no 4-2-3-1, ele no lado esquerdo do ataque, na direita era o Otávio, Gegê centralizado e o Sassá com a 9. Nosso time era muito bom - recordou Jair.
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Vitinho na base do Botafogo, ao lado de jogadores como Sassá, GIlberto e Jadson, que também vingaram no futebol — Foto: Arquivo pessoal
- Fizemos um pacto. Falei que poderia lher dar as duas coisas que ele mais queria na vida: jogar no profissional do Botafogo e na Seleção. Separei um vídeo do Cristiano Ronaldo e do Messi voltando para marcar. Jogadores consagrados que ajudavam na parte tática. Falei que se fizesse isso ele seria convocado para Seleção sub-20, em que eu era auxiliar, eu falaria com Oswaldo Oliveira, técnico do profissional do Botafogo. Ele passou a arrebentar mais ainda, com entrega, jogando para o time. Um jogador completo - recorda Jair.
O resultado foi rápido: Jair recebeu um telefonema de Oswaldo de Oliveira, para quem recomendou o atacante sem pestanejar.
- Está pronto.
E depois ligou para o Ney Franco, à época técnico da seleção brasileira sub-20, para falar de um "jogador fantástico" que tinha em mãos. Vitinho foi convocado e, enfim, subiu para nunca mais voltar.
Pai prevê emoção grande, fala em gratidão ao Botafogo e vibra com filho no "Mengão" dele
Com a pacificação realizada em 2011, viver no Complexo do Alemão não era mais tão assustador, porém dificuldades ainda acompanhavam Vitinho.
- Pegava um ônibus até a Leopoldina e de lá pegava outro para o Caio Martins. Já estava na metade do sonho. O Audax deu boa estrutura, mas quando chega ao Botafogo o nosso sonho aumenta, porque é clube grande. Tínhamos nossas dificuldades, mas não deixava faltar treino, não. Quantas vezes fomos aos treinos e jogos, e os garotos voltavam no carro do empresário, e a gente voltava de busão do Caio Martins. Às vezes, pegávamos carona - relembra Seu Rinaldo.
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Vitinho de frente para a torcida do Flamengo pela primeira vez no Maracanã — Foto: Gilvan de Souza / Flamengo.com.br
- Pô, cara... é um sonho de moleque o Flamengo. É uma estrada. A dificuldade é enorme. Todo mundo só vê quando os garotos conseguem se profissionalizar num clube grande. Até chegar aí é uma batalha. A gente não tinha empresário. Foi coisa de Deus com ele na luta dele. Foi uma luta que coroou o esforço dele.
Emoção, aliás, não vai faltar neste sábado, às 19h, no Nilton Santos. O Botafogo representa um capítulo crucial na vida do atleta de 25 anos.
- Eu e o Victor somos muito gratos ao Botafogo. Vai ser (especial) sim, com certeza. Não só para ele, mas eu também sei o quanto o Botafogo foi importante na vida dele. Abriu as portas. Vai ser emocionante, cara. Meu pai (Seu João) é botafoguense. Mas hoje ele torce mais para o Victor Futebol Clube (risos).
Transferências dos sonhos do Botafogo, antigo sonho de consumo do Flamengo, Vitinho realiza de olhos abertos nos últimos meses o desejo de moleque. E Seu Rinaldo, grato à Estrela Solitária e rubro-negro de coração, prevê novas - e grandes - realizações.
- Agora melhor ainda com ele no Mengão. O coração faltou sair pela boca (ao ver o filho no Maracanã com a camisa do Flamengo). Nos jogos que vou fico num estado de nervos... E ainda não aconteceram as coisas que a gente sabe que vai acontecer - profetiza o pai da criança.
Fonte: https://globoesporte.globo.com/rj/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/o-sonho-de-moleque-e-o-complexo-caminho-de-vitinho-da-favela-para-o-botafogo-ate-o-flamengo.ghtml
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