Na segunda-feira que sucedeu a vitória fora de casa do Flamengo por 3 a 0 sobre o campeão Corinthians, em 19 de novembro, chegaram ao Rio de Janeiro os analistas da Double Pass. Trata-se de uma consultoria belga que aprimorou a formação de jogadores de futebol na Alemanha e na Bélgica e hoje está presente também nos Estados Unidos. Foi a segunda vez que a empresa mandou seus profissionais à cidade para reuniões com dirigentes do Flamengo, como Rodrigo Caetano, diretor executivo de futebol, Reinaldo Rueda, técnico colombiano recentemente contratado, e treinadores das categorias de base. A primeira visita ocorreu em outubro, quando a parceria começou, e durou dez dias. Os belgas deverão trabalhar no Flamengo até dezembro de 2018 para ajudá-lo a reestruturar seu departamento de futebol e, se tudo correr como imaginado, implantar métodos de trabalho dignos de um Bayern de Munique. Com um objetivo de longo prazo para lá de audacioso: inaugurar uma fase de supremacia rubro-negra no Brasil. Há no país ao menos mais meia dúzia de clubes que podem ter sonho parecido. Nenhum, porém, planejou isso com tanto capricho.
Parte do trabalho dos consultores consiste em definir com maior consistência como o Flamengo se comportará em campo ao longo dos anos. Joga num 4-4-2 ou prefere ter um atacante a mais num 4-3-3? Leva a bola ao ataque pelo chão ou com passes longos? Marca por zona ou homem a homem? Hoje, no Flamengo e em qualquer outro clube brasileiro, o técnico que chega tem o poder de impor suas ideias sem se importar com o trabalho anterior. Isso ocorre a cada troca de treinador. É tanta mudança de filosofia que time nenhum tem identidade. O Flamengo quer ter uma. Que bata com valores da história do clube, resumidos por palavras-chave como “raça”, “amor” e “paixão”. E que se aplique desde a base. Pelo plano, atletas sub-20, sub-17, sub-15 e até sub-13 aprenderão desde cedo a jogar como o Flamengo joga. Como se faz no campeoníssimo Bayern de Munique.
A SUPREMACIA RUBRO-NEGRA – POR ENQUANTO, SÓ NAS FINANÇAS (Foto: Fonte: balanços financeiros)
O plano de reformulação começou a tomar forma anos atrás, com a chegada do presidente estatutário Eduardo Bandeira de Mello e de Luz como diretor-geral. As categorias de base do clube foram reorientadas para formar atletas para o time profissional – não mais para ganhar torneios de base, que geralmente são vencidos por adolescentes mais fortes, mas nem sempre de maior potencial. Há algum resultado visível. Na semifinal que classificou o time para a decisão da Copa Sul-Americana, na quinta-feira (30), o atacante Felipe Vizeu marcou os dois gols contra o Junior Barranquilla, da Colômbia. Lucas Paquetá se destacou com mais uma aparição raçuda. E o goleiro César brilhou ao substituir o contestadíssimo Muralha: defendeu um pênalti e fez outras defesas importantes para manter o placar favorável. A semelhança entre esses três: todos vieram das categorias de base flamenguistas. Há também desdobramentos financeiros.
Em janeiro de 2017, o Flamengo fez a maior venda de sua história até ali, ao mandar o lateral Jorge para o Monaco por quase R$ 29 milhões. Em maio, uma venda maior bateu novo recorde, dessa vez do futebol brasileiro: a ida de Vinicius Júnior para o Real Madrid rendeu R$ 165 milhões. Se o Flamengo mantiver um sistema de formação de atletas moderno e meticuloso, como o que se propõe, tenderá a se manter na dianteira das exportações de jogadores – e sem depender excessivamente dessa receita.
ESCALA GLOBAL O Flamengo espera chegar a 2020 com € 200 milhões de faturamento – hoje, teria o tamanho da Roma (Foto: Fonte: balanços financeiros)
Nas finanças, o Flamengo realmente chegou, nos últimos anos, a uma posição privilegiada entre clubes brasileiros. O faturamento em 2017, estimado em R$ 633 milhões após revisão orçamentária, tem mais de R$ 350 milhões de dianteira em relação a quanto espera arrecadar o São Paulo – que nos anos 2000 teve soberania financeira e se tornou o brasileiro mais próximo da supremacia esportiva. Quanto mais dinheiro entra, mais pode ser investido em futebol. O Flamengo avalia que sua estrutura administrativa permitirá, a partir de 2018, tomar empréstimos com bancos de grande porte a juros baixos como nunca aplicados ao futebol. Os times por aqui usualmente se financiam com empréstimos de pequenos bancos, dirigentes ricos e agentes de atletas e pagam os juros altos tipicamente cobrados de quem não apresenta perspectiva financeira sólida. O clube também prevê que suas contas passem a ser carimbadas por uma das quatro maiores auditorias do mundo. Hoje essas auditorias passam longe do futebol por causa da tradição de administração instável e pouquíssima transparência no setor. Nas finanças do Flamengo, já há feitos a elogiar e o futuro é promissor. O problema é o futebol.
Um resultado modesto dentro das quatro linhas (Foto: Fonte: Tabelas dos campeonatos)
Mais de uma explicação circula nos corredores da Gávea para desvendar a frustração. O Flamengo não tem, em relação aos adversários, uma vantagem de investimento digna de um Bayern. Na Alemanha, o time de Munique dedica coisa de € 260 milhões aos salários de atletas e comissão técnica, enquanto o Borussia Dortmund, único a desafiar sua supremacia, gasta a metade. No Brasil, o Flamengo investiu R$ 91 milhões em salários e direitos de imagem de atletas e comissão técnica no primeiro semestre de 2017, ao passo que Palmeiras e Corinthians destinaram valores próximos, R$ 88 milhões e R$ 78 milhões. O Fluminense, rival tradicional, ficou para trás, com R$ 59 milhões. A demora para formar o time também atrapalha. Éverton Ribeiro, principal reforço da temporada, chegou só em junho. O goleiro Diego Alves foi repatriado em julho. As contratações espaçadas atrasam a preparação física e tática, além do entrosamento. Por isso, Luz quer que o Flamengo forme seu elenco ainda na pré-temporada, como faz o Bayern na Alemanha.
Os flamenguistas puseram no plano estratégico metas ambiciosas: querem se tornar o melhor time de futebol das Américas e subir na lista de 20 maiores do mundo em termos de faturamento. Isso implica chegar a uma receita de € 200 milhões e conquistar cinco torneios nacionais, entre Brasileirão e Copa do Brasil, entre dez possíveis. Ninguém fez isso no Brasil até aqui. Para chegar lá, seus dirigentes prometem manter a aposta em planejamento e método, além de não cometer irresponsabilidades financeiras, a antítese do que se viu no futebol brasileiro dos primórdios até hoje. E boa vontade não basta. O Flamengo precisará faturar de mais jeitos.
Na Libertadores, o desempenho do Flamengo caiu. Na Copa do Brasil, avançou (Foto: Fonte: Tabelas dos campeonatos)
Quando se fala na possibilidade de uma supremacia no futebol brasileiro, devem-se observar os adversários. Os outros clubes grandes têm finanças desajustadas. O Fla-Flu era igualitário nas finanças há poucos anos. Os tricolores cariocas faziam compras com dinheiro da patrocinadora Unimed – empresa então dirigida por Celso Barros, torcedor com ambições políticas no clube. Um episódio em 2007 ilustra a pujança financeira do período. Em janeiro daquele ano, o Fluminense tirou craques dos rivais – Leandro Amaral do Vasco e Dodô do Botafogo. Nos anos seguintes, contratou Conca, Fred e Deco, entre outros reforços caros. Mas a patrocinadora deixou o Fluminense em 2014. Hoje, o clube das Laranjeiras está quebrado e tem de vender jogadores para sobreviver.
O Fluminense, como o Flamengo em 2013, começou em 2017 uma reestruturação administrativa e financeira. O presidente Pedro Abad chamou a mesma EY para desenhar o plano, contratou Marcus Vinicius Freire, ex-dirigente olímpico, para a função de CEO e cortou gastos. Teve algum sucesso: a estimativa de déficit para 2017 encolheu de R$ 76 milhões para R$ 52 milhões. Mas a saúde do tricolor não se compara mais à do Flamengo. Em situações financeiras igualmente delicadas estão Vasco e Botafogo. Fora do Rio, só o Palmeiras compete de frente. A desigualdade financeira se firma. A questão é se o Flamengo conseguirá transformar dinheiro em taças para continuar a sonhar em se tornar o Bayern brasileiro.
Fonte: http://epoca.globo.com/esporte/epoca-esporte-clube/noticia/2017/12/o-flamengo-tem-um-plano-para-dominar-o-futebol-brasileiro-em-grana-e-tacas-ate-2020.html
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