Durante muito tempo, a torcida do Flamengo se acostumou a discutir contratações milionárias como solução para quase todo problema do elenco. Mas Leonardo Jardim está mostrando uma alternativa que pode ser ainda mais valiosa: recuperar jogadores que já estavam dentro do clube e fazê-los render novamente em alto nível.
E talvez essa seja uma das maiores vitórias do treinador português desde que chegou ao Ninho do Urubu.
Enquanto muita gente falava em reforços, dispensas e reformulação, Jardim olhou para dentro do elenco e encontrou respostas onde poucos enxergavam. O resultado aparece dentro de campo, nos números e principalmente na confiança recuperada de atletas que estavam em baixa.
Pedro, Evertton Araújo, Gonzalo Plata e Samuel Lino são hoje os maiores símbolos dessa transformação.
Pedro voltou a ser protagonista
O caso mais evidente é o de Pedro.
O centroavante atravessava um período complicado. Sem sequência, pressionado e longe do protagonismo que já teve em outras temporadas, o camisa 9 parecia viver mais um daqueles ciclos perigosos que costumam desgastar até grandes jogadores.
Mas Leonardo Jardim apostou nele.
Mesmo com limitações no elenco e críticas externas, o treinador insistiu na recuperação do atacante. O resultado foi imediato. Pedro voltou a ser decisivo, marcou 13 gols e distribuiu três assistências em 22 partidas.
O crescimento foi tão significativo que o atacante chegou a integrar a pré-lista observada por Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira visando a Copa do Mundo.
Talvez não tenha ido ao Mundial, mas recuperou algo igualmente importante: o respeito dentro de campo.
Evertton Araújo aproveitou a oportunidade
Outro caso interessante é o de Evertton Araújo.
A ausência de Erick Pulgar abriu espaço no meio-campo, mas apenas espaço não garante titularidade no Flamengo. Principalmente em um setor que conta com nomes como Jorginho, De la Cruz, Saúl e Paquetá.
Evertton não apenas aproveitou a chance. Conquistou a confiança do treinador.
O volante passou a aparecer entre os titulares com frequência e virou peça importante no sistema de Leonardo Jardim. Sua intensidade na marcação, disciplina tática e capacidade de cumprir funções específicas agradaram a comissão técnica.
Hoje já não parece mais um simples substituto emergencial.
Plata virou praticamente um reforço interno
Se existe um caso que simboliza a força da gestão de grupo de Leonardo Jardim, talvez seja Gonzalo Plata.
O equatoriano chegou a ficar fora dos relacionados por não se encaixar inicialmente nos padrões exigidos pela nova comissão técnica.
Muitos imaginavam que sua saída seria apenas questão de tempo.
Mas o jogador mudou sua postura, assimilou as exigências do treinador e reconquistou espaço. Mais do que isso: tornou-se uma peça importante no funcionamento ofensivo da equipe.
O Flamengo chegou a discutir possibilidades de negociação para a próxima janela, mas o próprio desempenho recente acabou mudando completamente o cenário.
Hoje, Plata é visto como parte importante dos planos do treinador.
Samuel Lino encontrou seu verdadeiro habitat
Samuel Lino talvez represente o exemplo mais claro de como Leonardo Jardim trabalha características individuais.
O atacante parecia perdido em determinados momentos do ano passado. Atuava preso à linha lateral, sem conseguir explorar seus melhores movimentos.
Jardim identificou isso rapidamente.
O treinador alterou sua função, deu mais liberdade para infiltrações, aproximações internas e movimentações entre linhas.
O resultado apareceu.
Samuel Lino passou a participar mais do jogo, ganhar confiança e produzir números importantes. Já soma quatro gols e seis assistências sob o comando do português.
Contra o Coritiba, inclusive, atuou praticamente como meia de criação e foi um dos melhores jogadores em campo.
Isso não é novidade na carreira de Leonardo Jardim
Quem acompanha a trajetória do treinador sabe que essa capacidade de recuperar, adaptar e desenvolver jogadores não começou no Flamengo.
Durante sua passagem histórica pelo Monaco, Leonardo Jardim ficou conhecido justamente por potencializar atletas que depois virariam estrelas do futebol mundial.
Foi sob seu comando que Kylian Mbappé ganhou espaço no time principal aos 17 anos. O treinador também teve papel importante no crescimento de nomes como Bernardo Silva, Fabinho, Thomas Lemar e Anthony Martial.
O caso de Fabinho é especialmente interessante.
Originalmente lateral-direito, o brasileiro foi transformado por Jardim em volante durante sua passagem pelo Monaco. A mudança deu tão certo que ajudou a consolidar o jogador em uma nova função e abriu caminho para sua evolução internacional.
Ou seja: enxergar funções diferentes, recuperar confiança e adaptar características individuais faz parte da identidade profissional do treinador.
O Flamengo está apenas começando a viver essa versão de Leonardo Jardim.
A próxima missão da intertemporada
Com a pausa para a Copa do Mundo, o treinador ganha um elemento raro no futebol brasileiro: tempo.
Tempo para treinar.
Tempo para corrigir.
Tempo para recuperar outros nomes que ainda não conseguiram render o esperado.
Saúl, Luiz Araújo, Cebolinha e Wallace Yan aparecem como candidatos naturais a esse processo. Todos possuem qualidade técnica reconhecida, mas vivem momentos de oscilação.
Jardim já mostrou que gosta de trabalhar recuperação individual dentro de um contexto coletivo.
Por isso, a intertemporada pode ser decisiva para apresentar novas versões desses jogadores.
O mercado pode mudar de direção
Outro efeito importante dessa recuperação coletiva está nos bastidores.
Quanto mais atletas recuperam valor técnico, menos o Flamengo precisa agir por desespero no mercado.
A diretoria passa a ter mais tranquilidade para definir prioridades e evitar contratações apenas para preencher lacunas imediatas.
Em vez de buscar soluções externas para tudo, o clube começa a extrair mais rendimento do próprio elenco.
E isso costuma ser uma das marcas dos trabalhos mais sólidos.
Opinião do NF: recuperar jogador vale quase como contratar craque
Vou ser sincero.
Torcedor do Flamengo adora contratação. Se aparecer vídeo de um ponta driblando cone na Europa, já tem gente pedindo anúncio oficial em cinco minutos.
Mas existe algo tão importante quanto contratar: recuperar.
Porque recuperar jogador significa aumentar opções, economizar dinheiro e fortalecer o elenco ao mesmo tempo.
Pedro parecia questionado. Hoje é protagonista.
Plata parecia negociável. Hoje é indispensável.
Samuel Lino parecia sem encaixe. Hoje virou solução tática.
Evertton parecia apenas opção. Hoje disputa posição de verdade.
Tudo isso sem gastar um centavo em transferência.
Convenhamos: se Leonardo Jardim continuar ressuscitando jogador em baixa nesse ritmo, daqui a pouco o CT do Ninho do Urubu vai precisar abrir uma ala específica para milagres futebolísticos.
Brincadeiras à parte, o mérito existe e é enorme.
Talvez o maior reforço do Flamengo nesta temporada não tenha vindo da janela. Talvez ele tenha chegado sentado no banco de reservas.
E você, qual jogador do elenco mais precisa aproveitar a intertemporada para dar a volta por cima com Leonardo Jardim?

