Técnico português, novo sistema e muitas trocas: o que mudou no Flamengo após a final em Montevidéu




GE: O Flamengo irá reencontrar o adversário que se tornou seu maior rival nos últimos anos e que lhe causou o maior dano recente: o vice-campeonato da Libertadores de 2021. Em 143 dias, muita coisa aconteceu.



A estrutura do time que enfrentará o Palmeiras nesta quarta-feira, pelo Brasileiro, é radicalmente diferente em relação ao da decisão continental. As mudanças vão do comando técnico aos jogadores. E não são poucas. Garotos viraram protagonistas, outros foram emprestados, e líderes perderam espaço.

Renato é o primeiro a cair

Efeito imediato da derrota por 2 a 1 em 27 de novembro foi a saída de Renato Gáucho. O fim da relação já estava definido antes mesmo do jogo com o Palmeiras, mas o revés acelerou o distrato em comum acordo, anunciado oficialmente na segunda-feira posterior ao duelo.



Sonho antigo de Rodolfo Landim, até conseguiu resultados positivos e goleadas impactantes contra rivais de peso, mas falhou nas três frentes em que buscava títulos de expressão: Copa do Brasil, Brasileiro e Libertadores.

Bruno Viana não deixa saudades

Se a troca no comando foi a reação mais rápida da diretoria, a primeira saída de jogador pós-Montevidéu também teve como motivo a ausência de resultados. O zagueiro Bruno Viana, emprestado pelo Braga e um dos poucos contratados em 2021, terminou como a grande decepção da temporada. As más atuações fizeram a diretoria desistir de qualquer possível passo em direção da compra dos direitos econômicos.



Flerte com Jesus e decisão por Paulo Sousa no Natal

Uma semana após perder a Libertadores, os associados do Flamengo reelegeram Landim em decisão nada surpreendente. Ciente de que a vitória nas urnas era previsível, Marcos Braz e Bruno Spindel partiram para a Europa com o intuito de trazer um português para substituir Renato Gaúcho. Entre os nomes na mesa estava o de Jorge Jesus, preferido da torcida e muito querido pela diretoria. Mas Paulo Sousa, naquele momento treinador da seleção polonesa, foi o mais assertivo de todos dentre os entrevistados pela dupla que comanda o futebol. Desde o princípio.

Paulo foi o primeiro dos treinadores que conversaram com Braz e Spindel. Em uma semana, a dupla causou frisson em solo português principalmente em função de um encontro com Jorge Jesus em residência do treinador, à época empregado no Benfica, em Cascais. Ciente do apreço que os rubro-negros tinham por JJ, Paulo Sousa aguardava uma definição, mas tinha convicção de que deixara boa impressão nos brasileiros.



Depois de muitas conversas, a diretoria tomou a decisão por Paulo Sousa nas últimas horas do dia 25 de dezembro. E optou também por uma comissão robusta, composta por outros cinco estrangeiros.

Onze saídas

Janeiro chegou, e o Flamengo negociou uma série de pratas da casa. Duas saídas, porém, não estavam no script. As dos atacantes Kenedy e Michael. O primeiro saiu por conta de um pedido do alemão Thomas Tuchel, técnico do Chelsea. Já o outro rendeu ao Flamengo quase R$ 50 milhões ao partir para o Al Hilal.

No início da temporada também foram definidas as saídas dos goleiros César e Gabriel Batista, dos volantes Piris da Motta e Hugo Moura e do atacante Vitor Gabriel. Destes, Hugo, Vitor e Gabriel Batista têm contrato com o Flamengo. O vínculo de Batista, porém, é válido somente até dezembro.

Em abril, o zagueiro Gabriel Noga e os laterais-esquerdos Ramon e Renê também saíram. Os pratas da casa estão emprestados a Atlético-GO (Noga) e Bragantino (Ramon), e o piauiense transferiu-se em definitivo para o Internacional de Porto Alegre.



João Lucas e Max poderiam entrar na conta, mas já estavam fora do Flamengo desde o segundo semestre do ano passado, quando estavam emprestados ao Cuiabá. João seguiu lá, enquanto Max foi para os Estados Unidos.

Reforços espaçados, e goleiro Santos como principal novidade

Com elenco robusto mesmo em meio à saída de dois atacantes, sabia-se que o Flamengo pouco contraria. Desta forma, cinco reforços foram contratados de forma espaçada. Primeiro o atacante Marinho, depois os zagueiros Fabrício Bruno e Pablo.

Apesar da estreia animadora contra o Boavista, Marinho perdeu espaço rapidamente por questão de característica. Nas últimas rodadas ele vem conseguindo mais oportunidades. Fabrício Bruno começou como titular absoluto, mas uma contusão sofrida no primeiro jogo da decisão estadual o fez perder as cinco partidas seguintes.

Pablo também se lesionou, mas logo em seu primeiro treino. Depois de um mês em recuperação, deve ser relacionado pela primeira vez nesta quarta-feira, contra o Palmeiras, no Maracanã.



Ayrton Lucas foi outro que chegou recentemente. A exemplo de Pablo, a guerra entre Rússia e Ucrânia facilitou a negociação, e o lateral-esquerdo chegou emprestado pelo Spartak Moscou.

Santos, o último dos reforços foi o mais impactante. Não apenas pelo nome construído no Athletico-PR e por convocações recentes, mas principalmente por se tratar da posição de Diego Alves, um dos goleiros mais importantes da história do Flamengo.

Independentemente da relação fria que Diego Alves tem com Paulo Sousa e o preparador de goleiros Paulo Grilo, o pedido de um jogador para a posição era prioridade da comissão técnica portuguesa. A longa negociação arrastou-se por dois meses e foi concluída na véspera do fim do prazo de inscrições de atletas para a primeira fase da Libertadores.

Santos chegou para permitir a Hugo Souza uma consolidação na categoria profissional menos atropelada e participar de um fim de ciclo de Diego Alves. Por enquanto soma apenas um jogo, mas deve voltar a jogar nesta quarta-feira, contra o Palmeiras. A tendência é que seja mais utilizado que o prata da casa em 2022.

Três zagueiros, fim do "onze inicial" e demora para engrenar

Dono de conceitos inovadores, como a instalação de um telão no CT, Paulo Sousa chegou com o propósito de desconectar o Flamengo do ano mágico de 2019, protagonizado pelo compatriota Jorge Jesus. De cara implementou um sistema com três zagueiros, que rapidamente gerou questionamentos. Alguns deles feitos pelos próprios jogadores, mesmo que de forma sutil, em entrevistas.

A constante troca de jogadores e a aversão à ideia de um time titular com 11 jogadores bem definidos trouxeram conflitos. O Flamengo oscilou nos primeiros meses de Paulo Sousa. Teve apresentação promissora na Supercopa do Brasil, no empate por 2 a 2 com o Atlético-MG, mas perdeu o troféu nos pênaltis. Em contrapartida, fez jogos sofríveis contra o Fluminense em uma decisão estadual em que era apontado como franco favorito.



Os novos processos trazidos pelo português trouxeram ruídos, jogadores estranharam os métodos, mas, mesmo pressionado pela ausência de resultados, Paulo Sousa bateu no peito e insistiu em suas convicções ao montar um time que ataca no 3-2-4-1 e se defende com duas linhas de quatro.

Resgatou João Gomes, quem transformou em um de seus pilares na temporada, e transformou Lázaro, que ainda estava devendo no profissional, em peça importante. Por outro lado, não apostou em Ramon e liberou Renê. No setor, aliás, testou Everton Ribeiro, mas a aposta não se mostrou frutífera.

Definiu David Luiz e Gabigol como suas lideranças, manteve Willian Arão na condição de titular absoluto, mas não conseguiu até então cumprir a expectativa de fazer Pedro e Gabi jogarem juntos com frequência.

Melhor momento de Paulo Sousa

Depois de turbulências, questionamentos internos e externos, Paulo Sousa chega para o primeiro Flamengo x Palmeiras diante do também português Abel Ferreira em seu momento mais positivo na Gávea. Seus jogadores mais criativos têm dialogado com maior facilidade e estão mais próximos. A marcação alta está ajustada, e as oportunidades têm sido criadas com maior constância. Em meio ao futebol que começa a aparecer com maior consistência, vitórias convincentes contra Talleres e São Paulo vieram.

Vencer o Palmeiras seria de suma importância para um momento de consolidação de processos, como o próprio Paulo Sousa gosta de falar. Sabe-se que ainda há vacilos e muitos ajustes a serem feitos, mas o jogo desta quarta-feira é daqueles com cara de divisor de águas. Ou de mudança de patamar, como diria um filósofo rubro-negro.



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Imagem: Andres Cuenca Olaondo/Reuters
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