quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Disposto a debater o jogo, Paulo Sousa deixa no ar pistas sobre o seu Flamengo




Por Blog do Mansur | GE: Durante pouco mais de 50 minutos de entrevista, Paulo Sousa sequer precisou expor segredos, mergulhar fundo nas minúcias de seu modelo de jogo para demarcar uma diferença e apresentar um cartão de visitas: a disposição de conversar sobre futebol, uma certa dose de generosidade com o debate. Além do trabalho, dos métodos e das ideias, talvez seja na troca de impressões sobre o jogo que o Brasil mais tenha a ganhar com a chegada de estrangeiros. É a vantagem de estarmos abertos a novas culturas, mas também de importarmos gente aberta à troca.



Talvez para a boa impressão da coletiva tenha contribuído o contraste. O Flamengo acaba de sair de um treinador que rejeitava qualquer debate sobre aspectos táticos do jogo em suas entrevistas. É obviamente uma escolha e um direito de Renato Gaúcho. Mas que limita sua contribuição para o ambiente do futebol no Brasil.

O caso é que Paulo Sousa deixou, ao mesmo tempo, informações, dúvidas e uma justificada curiosidade sobre a montagem do time, sobre como pretende aproveitar o excelente material humano de que dispõe. E para que despertasse todas essas sensações, não precisou de mais do que uma resposta.



“Temos três avançados (atacantes) muito fortes. Após trabalhar no campo vou entender melhor a capacidade de cada um. Já usei três avançados e penso em fazer o mesmo desde o início ou durante os jogos”, disse Sousa, antes de acrescentar que enxerga em Bruno Henrique “muita capacidade de área, de gol”. Para ele, Bruno, Gabigol e Pedro são “três jogadores com muita capacidade de concretizar”, ou seja, de fazer gols.

Ou seja, a resposta confirma uma impressão que seus times anteriores deixavam: por característica e, claro, qualidade técnica, Pedro deverá ganhar mais oportunidades. A partir daí, é natural fazermos um exercício: tentar imaginar uma provável formação, um time base com Pedro incluído.


A imagem acima é apenas uma das possibilidades, não uma conclusão definitiva. E mostra o Flamengo formado no momento de atacar, ou seja, quando tem a bola para se estabelecer no campo adversário. É um momento do jogo.



A premissa é que, em praticamente todos os trabalhos anteriores, Sousa fez seus times atacarem num 3-4-2-1. Há bons motivos para imaginar que, no Flamengo, esta saída com três homens possa ser com Filipe Luís ao lado dos dois zagueiros, entre outras coisas porque, nesta altura da carreira e por suas características, seria surpreendente vê-lo como um ala abrindo campo.

Na dupla de volantes, Thiago Maia pode ganhar força na disputa por um dos dois lugares, mas é a partir daí que o quebra-cabeças se complica. Para usar Pedro junto a Gabigol e Bruno Henrique, é natural que um dos quatro homens do quarteto ofensivo de 2019 seja sacrificado. O que não é definitivo, afinal o calendário exigirá rotações no time. Mas pela exigência de ter dois alas pelos lados, abrindo o campo e atacando o lado da área, é possível que Paulo Sousa use um lateral pela direita e um jogador com característica de atacante pela esquerda. Inclusive por causa do momento defensivo: seus últimos trabalhos indicam uma defesa em 4-4-2, com duas linhas de quatro homens. Assim, o lateral direito se juntaria aos três homens da saída de bola, formando a linha de quatro. E o atacante que ocupar a ala pela esquerda não é obrigado a retornar até a linha defensiva após a perda da bola.



Isso indica Éverton Ribeiro fora do time titular? Em alguns jogos, talvez. Mas por ora tudo é teoria. A temporada é longa e o campo quem pede passagem. Com o caminhar dos jogos, cada jogador pedirá passagem e mostrará que posição pode executar. Éverton pode brigar por um lugar por trás do centroavante, por exemplo. É mais difícil imaginá-lo cobrindo todo o lado direito do campo.

Mas e o "ala" pela esquerda. É possível especular sobre Kenedy, caso se apresente no melhor de sua forma, ou sobre Michael e Vitinho. Mas também sobre Bruno Henrique. Porque o seu aproveitamento pelo lado permitiria que Gabigol e Arrascaeta fossem os dois homens por trás de Pedro. Este desenho manteria o uruguaio no jogo entre as linhas do adversário, além de permitir a Gabigol a mobilidade entre o lado direito e o centro do ataque. Sempre foi difícil adaptar Gabigol e Pedro como dupla, mas agora seria uma tentativa diferente, num outro sistema, outra ocupação de espaços.



Mas algumas questões se colocam: ao colocar Bruno Henrique aberto, o Flamengo de Paulo Sousa não perderia sua presença de área, sua imposição no jogo aéreo? É possível que aconteça, mas as equipes de Paulo Sousa viam, muitas vezes, o ala liberado para atacar a área ao finalizar as jogadas. O Flamengo construiu alguns gols com cruzamentos de Gabigol para Bruno Henrique atacar as costas do lateral adversário. É uma opção.

Acontece que, numa entrevista que concedeu ainda em Portugal, Paulo Sousa destacou Bruno Henrique ao falar da força do Flamengo pelo “corredor central”. Ou seja, pode ser um indicativo de uma intenção de colocar o trio de atacantes mais “por dentro”, ou seja, nas três posições mais próximas da área. Aí, o leque se abre ainda mais.



Porque assumindo que o português manterá o 3-4-2-1 ofensivo, teria que escolher um outro nome para a “ala” esquerda. E aí, novamente, viriam os nomes de Kenedy, Vitinho ou Michael. Mas onde jogaria Arrascaeta? Há duas hipóteses. Uma, bem ousada, foi levantada por Rui Malheiro, que já trabalhou com Paulo Sousa, durante recente participação no Seleção Sportv. Ele especulou que o uruguaio possa jogar na dupla de volantes. Resta saber se a ideia não tiraria o melhor de um jogador tão influente nos metros finais de campo.

Outra possibilidade é que faça a ala esquerda no hora de atacar, trazendo a bola para o centro, como de costume. O time poderia até repetir um movimento comum no time de Jorge Jesus, quando Arrascaeta fazia a diagonal da ponta para o centro e Bruno Henrique executava movimento inverso.



Isso sem contar que, na seleção polonesa, Paulo Sousa usou um 3-4-1-2, ou seja, uma dupla de ataque com um meia, uma espécie de "camisa 10" por trás, numa inversão do triângulo ofensivo. Esta formação, aí sim, tornaria a função do "10" muito à feição de Arrascaeta, com a dupla Gabigol e Bruno Henrique na frente. Seria uma opção sem Pedro, por exemplo.

O fato é que, muitas vezes, o time que está na cabeça de uma comissão técnica para iniciar a temporada raramente é o que termina uma campanha. O fundamental, como Paulo Sousa também abordou na coletiva, é que o time entenda o seu modelo. E este é um recado fundamental também para o torcedor. O novo treinador usa conceitos do chamado jogo posicional, dá atenção especial ao domínio dos espaços do campo, distâncias entre jogadores, buscando fixar marcadores, atrair e gerar vantagens para progredir. Então, assim deverá ser avaliado, e não numa comparação com Jorge Jesus, cujo jogo de mobilidade, por vezes agrupando jogadores em torno da bola, tinha outra linguagem.



- A amplitude (largura do campo) pode ser dada por extremas ou laterais. O importante é que o time tenha a compreensão da ocupação dos espaços, em termos de distâncias, linhas, amplitude e profundidade. A diferença vai ser o protagonista que vai ocupar cada espaço – disse Sousa. Ou seja, haverá zonas do campo a ocupar e uma forma de jogar, mas a cada jogo os nomes escolhidos para pisar cada setor do campo podem mudar.

Como sempre, é um trabalho que exige tempo. Mas Paulo Sousa, em sua primeira aparição diante dos microfones, já nos ofereceu um bom debate.


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Imagem: Divulgação

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