O que aconteceu no VAR? Áudio de Flamengo x Santos aumenta dúvidas sobre expulsão de Jorginho

 

O empate por 2 a 2 entre Flamengo e Santos, na Vila Belmiro, deixou um gosto amargo para o torcedor rubro-negro. E a divulgação do áudio do VAR pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na noite desta sexta-feira, não serviu para encerrar a polêmica. Pelo contrário: o diálogo entre os árbitros expôs dúvidas, divergências e uma discussão sobre a expulsão de Jorginho que reforça os questionamentos sobre a condução da arbitragem.

O Flamengo tem motivos para cobrar explicações. Além do pênalti que resultou no cartão vermelho para o volante, o clube reclama de uma entrada de Barreal por trás em Carrascal, que não terminou com a expulsão do jogador santista, e de uma possível falta sobre Neymar na origem do segundo pênalti da equipe paulista.

Diante desse cenário, a pergunta que fica é inevitável: por que os lances que prejudicaram o Flamengo precisam ser analisados com tanta tolerância às decisões da arbitragem, enquanto uma jogada envolvendo Jorginho terminou com o Rubro-Negro em desvantagem numérica?

Não há, no material divulgado, prova de que os árbitros tenham agido deliberadamente para prejudicar o Flamengo. Mas isso não elimina a necessidade de esclarecer as decisões, principalmente quando o próprio áudio revela um debate prolongado sobre a interpretação do lance.

Áudio do VAR revela discussão antes da expulsão de Jorginho

O diálogo divulgado pela CBF mostra o árbitro de campo, Anderson Daronco, conversando com o responsável pelo VAR, Rodolpho Toski Marques, e seu assistente sobre a possibilidade de considerar o lance uma situação de DOGSO — quando um jogador impede uma oportunidade clara de gol.

Inicialmente, Toski afirmou não identificar uma falta clara na disputa e ponderou que Jorginho estava em movimento de queda. O assistente de vídeo, por outro lado, insistiu que o braço do volante impediu a continuidade da jogada e que a situação deveria ser interpretada como uma oportunidade clara de gol interrompida.

A discussão continuou até que Toski recomendou a revisão no monitor. Depois de analisar as imagens, Daronco concordou com a interpretação de DOGSO e confirmou o pênalti e a expulsão.

O problema é que a análise não pode se resumir ao momento em que a bola toca na mão do jogador. É necessário considerar o contexto completo da jogada, incluindo os contatos anteriores e a forma como a bola chegou ao braço.

E é justamente nesse ponto que surge uma das principais reclamações do Flamengo.

Veja abaixo como foi o diálogo entre os árbitros:

Daronco: Não faz (falta), mesmo critério de lá (em relação à disputa Paquetá e Barreal no gol do Danilo).

Toski (VAR): Eu não vejo uma alavanca de perna, vejo contato normal de perna. Não tem falta nem em cima e nem embaixo. Eles estão disputando a bola. Não temos um "Dogso" claro porque são bolas disputadas. É factual, o contato da mão é dentro da área.

AVAR: Rodolpho (Toski), como é a mão, é um "Dogso" e sem disputa. Se usou a mão, não tem disputa.

Toski (VAR): Eles estão disputando ali, não?

AVAR: Não, ele usou a mão no chão. Não tem disputa.

Toski (VAR): Mas ele está em movimento de queda. Cai pela disputa. Pode ser um "Dogso" com disputa.

AVAR: Temos dois atacantes que poderiam fazer o gol

Toski (VAR): Checando o "Dogso" ou não. Nós temos um contato de jogo natural aqui. Ele está em queda. A bola está parada naquele momento, não tem um jogador que joga. Uma bola que parou no braço porque um jogador está caído fruto de uma disputa anterior. Tem um braço que impede o jogador de prosseguir, mas como é dentro da área seria um "Dogso" fruto da disputa essa queda dele. Ou alguém vê um "Dogso" claro?

Assistentes concordam, e Toski avisa ao Daronco:

Toski (VAR): Decisão factual, é dentro da área, seria um pênalti confirmado.

Daronco: Perfeito. E o disciplinar, está ok?

Toski (VAR): Se você deu por um ataque promissor...

AVAR: Fala para ele que é um "Dogso".

Daronco: Torski, ou tu me chama (sic.) ou não.

AVAR: Chama porque é um "Dogso". Para ele interpretar "Dogso".

Toski (VAR): Ataque promissor não é. Nós temos um "Dogso". Se você deu cartão, não é um ataque promissor. Sugiro revisão por "Dogso". Sugiro revisão porque você deu por promissor onde a situação é um "Dogso". Você tem que analisar se tem disputa ou não.

AVAR: Ele falou que era promissor. Se para nós é "Dogso" chama.

Toski (VAR): Você vê claramente que era um "Dogso", ele ia enfrentar o goleiro.

Após revisar o lance no monitor.

Daronco: Para mim seria uma situação de "Dogso", perfeito.

Toski (VAR): Agora analisa se tem o ponto na mão, e ele não tem disputa para você, correto?

Daronco: Não é questão de disputa, é uma mão. Vou voltar com uma questão factual de pênalti e cartão vermelho para o jogador, é isso? Por "Dogso".

Toski (VAR): Correto, por "Dogso".Porque ele já está em queda e é um braço dentro da área.

Empurrão em Jorginho antes do toque na mão aumenta a indignação

Na contestação rubro-negra, um detalhe merece atenção: Jorginho teria sido empurrado antes de a bola atingir sua mão. Na sequência, segundo a reclamação apresentada após o jogo, o jogador do Santos ainda chutou a bola contra o braço do volante.

Se esses elementos não foram devidamente considerados na revisão, a análise do lance fica incompleta. Afinal, avaliar apenas o contato da bola com a mão, sem examinar o que aconteceu imediatamente antes, pode deixar de fora circunstâncias fundamentais para a interpretação da jogada.

O áudio divulgado mostra os árbitros debatendo a queda de Jorginho, o contato com a mão e a possibilidade de impedir uma chance clara de gol. Entretanto, o material não registra uma discussão explícita sobre o suposto empurrão anterior apontado pelo Flamengo.

É uma lacuna que merece esclarecimento. A torcida tem o direito de conhecer os critérios utilizados em um lance que terminou com pênalti contra sua equipe e a expulsão de um jogador.

A revolta aumenta porque não se trata apenas de discutir uma infração isolada, mas de entender se toda a sequência foi examinada antes de uma decisão com impacto direto sobre a partida.

Carrinho de Barreal em Carrascal também entra na mira

Como se a polêmica envolvendo Jorginho não fosse suficiente, o Flamengo também questiona a ausência de expulsão de Barreal após um carrinho por trás em Carrascal.

A reclamação coloca em evidência uma cobrança legítima sobre a consistência dos critérios disciplinares. Se uma equipe entende que determinada entrada merecia cartão vermelho, é necessário que a arbitragem apresente uma interpretação coerente com as regras e com as circunstâncias do lance.

O material divulgado pela CBF, porém, não trouxe o áudio da análise desse episódio. Assim, não é possível afirmar, com base no conteúdo publicado, quais foram os argumentos utilizados pelos árbitros para avaliar a jogada.

Essa ausência de esclarecimento alimenta a insatisfação rubro-negra. Afinal, enquanto o áudio do lance de Jorginho foi divulgado, outras decisões contestadas pelo clube continuam sem a mesma exposição pública.

Flamengo também questiona possível falta sobre Neymar

Outro ponto levantado pelo Rubro-Negro envolve a origem do segundo pênalti marcado para o Santos. O clube questiona se houve falta sobre Neymar próximo a grande área, antes da sequência que terminou com a penalidade.

A reclamação reforça a cobrança por uma análise completa dos lances decisivos da partida. Não basta divulgar apenas um diálogo e considerar encerrada a discussão quando outros episódios também são questionados por uma das equipes.

O conteúdo publicado pela CBF não esclarece diretamente essa reclamação. Por isso, não há elementos suficientes para concluir, apenas com base no material divulgado, se a arbitragem acertou ou errou nesse lance.

O que existe é uma série de questionamentos que merece respostas objetivas, sobretudo diante da importância das decisões para o andamento do confronto.

A sensação de injustiça não pode ser ignorada

O Flamengo saiu da Vila Belmiro com um empate por 2 a 2, mas a repercussão ficou marcada pela arbitragem. A expulsão de Jorginho, o pênalti confirmado após revisão e as reclamações sobre Barreal e Neymar transformaram as decisões dos árbitros em um dos principais assuntos após a partida.

É compreensível que o torcedor rubro-negro se sinta prejudicado diante de lances que considera mal interpretados. Quando diferentes decisões controversas se acumulam no mesmo jogo, a cobrança por transparência se torna ainda mais necessária.

Isso não significa afirmar, sem provas, que houve intenção de favorecer o Santos ou prejudicar o Flamengo. Significa exigir que a arbitragem explique seus critérios, que os lances sejam examinados de maneira consistente e que o VAR cumpra sua função de contribuir para decisões corretas.

O futebol brasileiro não pode tratar questionamentos dessa dimensão como simples reclamações de um clube inconformado com o resultado. Se a CBF decidiu divulgar o áudio do lance de Jorginho, também precisa garantir que as dúvidas sobre as demais jogadas sejam esclarecidas pelos meios adequados.

A revolta do Flamengo não se resume ao cartão vermelho. O que está em discussão é a confiança na arbitragem e a necessidade de critérios claros para todos os clubes.

Enquanto as dúvidas permanecerem sem respostas, a sensação de injustiça continuará alimentando a indignação da torcida rubro-negra.


Postar um comentário

Deixe seu comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem