Por Renato Rodrigues e Rodrigo Coutinho: Flamengo e River Plate definem, no próximo sábado, às 17h, em Lima, no Peru, o dono da América em 2019. Se por um lado os argentinos defendem o título da temporada passada, podendo conquistar o bicampeonato, o time rubro-negro busca um caneco que não conquista faz 38 anos. Pelo nível técnico e organização das equipes, este confronto tem tudo para ser uma das finais de Libertadores mais bem jogadas dos últimos anos.
O encontro, além de marcar um embate de muitos jogadores de alta capacidade técnica, coloca frente a frente dois treinadores com grande estofo e, principalmente, capacidades estratégicas para mudar o rumo de partidas. Se no lado argentino Marcelo Gallardo tem um trabalho longevo de mais de 5 anos a frente dos Millionarios, com muitos títulos e remontagens de elenco, sempre revelando jovens promissores, Jorge Jesus traz toda uma experiência europeia e um trabalho avassalador que domina o futebol brasileiro neste segundo semestre de 2019.
Abaixo você confere uma análise total deste River Plate que tem sido uma das equipes reinantes na América do Sul nas últimas temporadas. Um dossiê mostrando como os hermanos atacam, defendem e se comportam em bolas paradas. Tem também um raio-x completo de seus cobradores de pênaltis e do goleiro Franco Armani, já que o jogo único em Lima pode terminar com uma disputa de penalidades.
Um material completo para você, fã de esporte, conhecer melhor o rival do Flamengo. Confira:
Como ataca: sistema tático igual ao do Fla e muita mobilidade ofensiva
O River Plate é uma equipe que busca ter mais posse de bola que o adversário, mas para que isso seja de fato utilizado de forma eficiente, o time de Gallardo mostra conceitos bem trabalhados de movimentação e ocupação dos espaços. É, acima de tudo, um time bastante vertical que busca na maioria das vezes acelerar e concluir as jogadas o mais rápido possível, sempre visando pegar o sistema defensivo do adversário desequilibrado. E as semelhanças não param por aí. A plataforma tática mais utilizada é o 4-1-3-2, o mesmo sistema base de Jorge Jesus no atual Flamengo.
A começar pela saída de bola. Enzo Pérez - que viu sua participação na final em risco por conta de uma lesão no ombro - é o homem mais recuado do meio-campo. Ex-Benfica, onde foi treinado por Jorge Jesus, mas sempre atuando como um segundo volante, ele tem o papel de se aproximar dos zagueiros para fazer a iniciação das jogadas. Este movimento possibilita a projeção dos laterais no campo ofensivo, gerando amplitude ao time e mais opções para circular a bola de um lado a outro.
O trio de meias dos Millionarios participa ativamente do segundo estágio de construção da equipe. De la Cruz e Ignacio Gonzalez flutuam dos lados para o centro na maioria das vezes. Enquanto um se aproxima da bola, o outro gera profundidade, fica mais perto da dupla de ataque (a imagem abaixo mostra bem o posicionamento da equipe em fase ofensiva). Palacios, que atua mais centralizado nesta linha de três meias, se mexe constantemente para gerar possibilidade pelo centro, seja entre as linhas de marcação do adversário, ou mais próximo de Enzo Pérez.
River Plante instalado no ataque: laterais avançam e abrem o campo, meias jogam por dentro e atacantes ficam na profundidade DataESPN
Matias Suarez recebe na área e raspa de cabeça para a diagonal de Nacho Fernandez na segunda trave DataESPN
Ignacio Fernandez é o principal articulador da equipe, fica atrás apenas de Everton Ribeiro no acerto dos passes em profundidade na Libertadores, 47,6% de eficiência. Nacho é o motor da equipe, uma espécie de 'Gerson do River' e um jogador com um alto grau de inteligência para controlar o ritmo da sua equipe.
Como tem uma dupla de ataque mais jovem em 2019, o River Plate ganhou mais potencial de contra-ataque. Suarez e Borré são consideravelmente mais velozes que Pratto e Scocco. Essas acelerações são constantes na retomada da bola e os passes costumam sair dos pés de Palacios e Nacho Fernandez. As conduções em velocidade de De la Cruz também são uma importante arma das transições. Ele é o terceiro jogador que mais acerta dribles na Libertadores: 62,1 em média.
Como defende: muita intensidade e falhas com a linha defensiva quebrando
O River Plate tem poucos momentos em fase defensiva ao longo dos jogos. Primeiro por que, como já citado anteriormente, fica muito mais tempo com a bola no pé. E segundo em função da reação rápida ao perder a posse. A ideia de Gallardo é que seu time ‘’sufoque’’ o adversário e retome rápido a bola. Como tem quase sempre as peças bem próximas no momento ofensivo, esse trabalho fica mais facilitado. Por mais que precise de ajustes quando o adversário supera essa primeira pressão, é bem competitivo na transição defensiva. O perde e pressiona, de fato, é uma das essências do atual campeão da Libertadores.
Outro detalhe marcante é a preferência por uma marcação mais agressiva no campo de ataque. Pressiona muitas vezes com cinco jogadores a saída de bola rival.
No geral, marcam por zona, mas seus laterais costumam ‘’desgarrar’’ da linha defensiva quando o oponente avança pelo lado. Por mais que isso garanta mais solidez na defesa da área, há liberdade muitas vezes para que os cruzamentos sejam feitos. A intensidade se mantém alta durante grande parte do tempo para os padrões sul-americanos. É um time que ‘’morde’’ o basicamente o jogo inteiro.
Se por um lado essas quebras na linha defensiva geram uma intensidade de jogo muito forte para os argentinos, por outro é um aspecto que pode ser bem explorado pelo Flamengo. Apesar de buscar compensações na linha quando ocorre um desgarre mais longo, o River acaba sofrendo com adversários que circulam a bola de primeira, tocando e projetando, atacando espaços que, por vezes, os defensores deixam para caçar. A imagem de abaixo mostra bem isso:
Lateral do River quebra a linha e lateral adversário ataca o espaço nas suas costas. Zagueiro precisa sair para fazer a cobertura DataESPN
Essa quebra da linha defensiva, por vezes, gera um efeito dominó que, geralmente, aparece no lado oposto da jogada. Na sequência da imagem acima, perceba como no fim da jogada, após os zagueiros cobrirem espaços deixados pelo lateral, Marquinhos Gabriel (Cruzeiro) aparece sozinho no lado esquerdo. Este é um tipo de espaço que o Flamengo pode tentar gerar e se aproveitar na final.
Jogada se desenrola e segunda trave fica livre para o Cruzeiro atacar após as seguidas quebras da linha defensiva DataESPN
Quem assistiu a semifinal entre Boca Juniors e River Plate pôde constatar a dificuldade que os Millionarios têm na bola parada defensiva. Mais especificamente as faltas laterais, que podem ser uma ótima arma para o Flamengo em Lima. Os adversários do time argentino costumam concluir 50% das bolas alçadas na área após faltas laterais, um número bem significativo.
O time de Gallardo permite que metade das bolas alçadas na área desta forma sejam finalizadas, um número muito alto. O principal ponto de falha é na primeira trave, que geralmente é defendido pelo zagueiro Pinola, que possui um índice baixo de aproveitamento em duelos aéreos. Coletivamente há o problema da movimentação da linha de marcação antes da batida na bola, o que deixa lacunas e mostra um movimento um pouco descoordenado.
Neste tipo de lance o River marca por zona com sete atletas em linha, deixa dois no rebote e um na barreira. Este tem sido o padrão nos últimos meses.
Já nos escanteios defensivos, o desempenho é melhor. A equipe argentina permite que 20% dos escanteios sejam finalizados pelos rivais, um bom índice relativamente alto até.
Neste tipo de jogada o sistema de marcação é mista, mas predominantemente individual. São seis jogadores do River marcando alvos adversários pré-determinados. Três marcando por zona, em diagonal, entre a primeira trave e a marca do pênalti. O nível de intensidade e concentração costuma ser mais alto do que nas faltas laterais.
Na parte ofensiva, olho em De la Cruz e Nacho Gonzalez. Eles são os responsáveis pelas batidas na área de faltas laterais e escanteios. Pela qualidade neste tipo de lance acabam potencializando quem vai pra área cabecear. O River Plate fez dois de seus 15 gols na competição desta forma.
Pênaltis: como se comportam os goleiros?
Franco Armani já foi campeão da Libertadores pelo Atlético Nacional da Colômbia Getty
River Plate e Flamengo possuem dois goleiros de muita bagagem e experiência internacional. Franco Armani é o atual titular da Seleção Argentina e já venceu a Libertadores duas vezes. Diego Alves fez fama internacionalmente ao defender penalidades de Messi e Cristiano Ronaldo, além de ótimos campeonatos espanhóis nos últimos anos e convocações para a Seleção Brasileira. Se a grande final terminar empatada, os batedores precisarão estar inspirados em Lima.
Estudo das cobranças de pênaltis de Franco Armani DataESPN
Observando a parte técnica de ambos neste momento atípico do jogo é curioso constatar que o que falta para um, sobra para o outro, e vice-versa. Diego Alves tem mais potência para chegar na bola, mas se ressente de mais envergadura. Já Armani tem braços mais longos, mas não é tão arrojado no ataque a bola. Não é raro vê-los acertando o canto, encostando na bola, mas realizando a defesa. Existe uma semelhança clara entre os dois neste sentido. Veja abaixo alguns números:
Principais Cobradores
O Flamengo tem dois jogadores que podem ser fundamentais se o título for decidido nos pênaltis. Gabriel e De Arrascaeta converteram todas as cobranças em 2019. Bruno Henrique seria a terceira opção entre os titulares, mas não tem a mesma eficiência. Tanto Bruno quanto Gabriel optam por esperar a ação do goleiro. O camisa 9 rubro-negro mostra mais paciência e poder de ilusão, tanto que geralmente espera o goleiro cair e o desloca. Já Arrascaeta é mais incisivo. Raramente olha para o goleiro. Parte pra bola de forma decisiva e busca cobranças mais altas, sempre com muita força.
Análise de batidas de Nacho Fernandez DataESPN
Análise de pênaltis de Rafael Borré DataESPN
A terceira opção mais utilizada entre os atuais titulares é De la Cruz. Ele também espera a ação do goleiro e varia muito o lado, assim como a força empregada na batida. Tem uma precisão parecida com a de Nacho.
Análise de batidas de De La Cruz DataESPN
Fonte: http://www.espn.com.br/blogs/renatorodrigues/764958_dossie-river-plate-os-pontos-fortes-e-fracos-do-rival-do-flamengo-na-final-da-copa-libertadores
Curta nossa Página









