O GLOBO: O título brasileiro de 1987 é uma daquelas questões da humanidade que jamais serão dirimidas. Como a existência de Deus e a vida após a morte, simplesmente não saberemos viver sem elas.
A questão não é uma mera disputa judicial, onde teoricamente verdade e argumento venceriam. Inúmeros documentários e livros já foram publicados, cada um tentando cobrir a questão com a lápide que ela merece. Como um zumbi, no entanto, ela sempre volta.
Não faz um mês que me encontrei com o zagueiro Ricardo Rocha - hoje comentarista dos canais Sportv -, que atuava pelo Guarani, vice-campeão do Módulo Amarelo, e jogou no Flamengo no final da carreira. Perguntei a ele quem foi o campeão - um ato canalha da minha parte - e a resposta dele foi no melhor estilo "me diga você": "Sport e Guarani estavam na Libertadores de 1988".
Outro dia um amigo mineiro me perguntava qual clássico interestadual tinha mais rivalidade. Normalmente a resposta é Flamengo x Atlético-MG, por causa dos confrontos polêmicos dos anos 1980, mas eu admiti que Flamengo x Sport não poderia ser ignorado. Numa de suas melhores ações de marketing, o Sport instituiu a camisa 87 e a deu para seu melhor jogador, Diego Souza - que outro dia pousou com ela ao lado de Neymar. Isso não quer dizer outra coisa: o número se tornou uma bandeira tão importante para o Sport quanto seu próprio escudo leonino - uma isca a que a maior torcida do Brasil não resiste, e morde sempre que possível.
Todas as vezes em que Flamengo e Sport se enfrentarem, estará inconscientemente em disputa a final jamais ocorrida de 1987, aquela que de uma hora para a outra se tornou obrigatória aos olhos da CBF, como um legado imaterial, uma resposta que cada placar dará a seu tempo. E isso permanecerá mesmo que surja uma decisão na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, aquela corte que deveria estar mais preocupada em defender a Constituição do que em resolver torneios de outrora. Já houve decisões anteriores em outros tapetões egrégios, da Justiça Desportiva à comum, e nada mudou nas mesas de bar. Por que mudaria agora, nas redes sociais, em que versões são muito mais populares que fatos e ninguém dá muita bola aos argumentos?
O que certamente acontecerá é que o lado derrotado decretará que "o STF é parcial", acusará seus juízes de serem mais torcedores do que julgadores e continuará vivendo seu título à sua maneira e à sua conveniência histórica. O lado vencedor terá apenas munição de grife, mais uma chancela dentre tantas que não encerraram a questão.
No fim, é como já escrevi certa vez, no meu finado blog no GloboEsporte.com: em 1987, cada um sabe o que ganhou.
*Márvio dos Anjos é editor de Esportes do GLOBO
Curta nossa Página: Clique aqui
