Boto revela plano do Flamengo após medida contra bets e admite possível venda de jogadores

 

O Flamengo já trabalha com diferentes cenários financeiros para enfrentar os possíveis prejuízos provocados pela medida provisória do Governo Federal que suspende as operações das casas de apostas no Brasil. O diretor de futebol rubro-negro, José Boto, confirmou nesta quinta-feira (1º) que o clube mantém reuniões frequentes com o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, para avaliar alternativas diante da incerteza sobre receitas previstas em contratos de patrocínio.

Apesar da preocupação com o impacto nas contas, o dirigente português foi categórico ao afirmar que os salários de jogadores e funcionários não serão colocados em risco. A possibilidade de negociar atletas e deixar de contratar substitutos, porém, está entre as alternativas consideradas para que o clube consiga honrar seus compromissos financeiros.

A preocupação envolve contratos firmados com base nas regras anteriores, incluindo acordos de patrocínio com empresas do setor de apostas, como a Betano, patrocinadora máster do uniforme rubro-negro.

José Boto confirma reuniões diárias e admite possíveis vendas

Em entrevista coletiva, José Boto explicou que a diretoria trabalha com diferentes possibilidades para lidar com a eventual perda de receitas. Segundo ele, o planejamento financeiro do Flamengo considerava valores previstos em contratos legalmente estabelecidos, o que tornou a mudança um novo desafio para a administração.

O dirigente ressaltou que o clube não pretende deixar de cumprir suas obrigações, mas reconheceu que será necessário avaliar medidas para equilibrar as contas caso o dinheiro esperado não esteja disponível.

Entre as alternativas discutidas está a venda de jogadores, inclusive sem a contratação de substitutos. A estratégia permitiria ao Flamengo obter recursos para cumprir os compromissos assumidos com outras equipes.

Boto, no entanto, estabeleceu uma prioridade para a diretoria: preservar integralmente os pagamentos dos profissionais que trabalham no clube.

Salários de jogadores e funcionários são tratados como prioridade

O diretor de futebol reforçou que, mesmo diante de um cenário financeiro desfavorável, o Flamengo não considera atrasar salários.

De acordo com o português, a discussão interna está concentrada principalmente nas obrigações financeiras com outros clubes, e não na remuneração dos atletas ou dos funcionários.

A declaração procura separar duas questões: a necessidade de ajustar o planejamento esportivo e financeiro e a manutenção dos pagamentos relacionados ao funcionamento cotidiano da instituição.

Caso a situação exija medidas mais duras, o elenco poderá sofrer mudanças, com possíveis negociações e menor reposição de peças. Boto afirmou que o objetivo é garantir o cumprimento dos compromissos assumidos, independentemente das dificuldades provocadas pela mudança nas regras do setor de apostas.

Flamengo leva preocupação financeira ao Supremo Tribunal Federal

Além das reuniões internas, o Flamengo decidiu recorrer à Justiça para apresentar os possíveis efeitos da medida sobre o financiamento do esporte nacional. O clube solicitou ingresso como amicus curiae em uma ação que discute a constitucionalidade da MP nº 1.394/2026.

A participação nessa condição permite que uma instituição interessada contribua tecnicamente para a discussão judicial, apresentando informações relevantes para a análise do caso.

Em nota oficial, o Rubro-Negro argumentou que a mudança pode afetar contratos de patrocínio em vigor, investimentos realizados sob a legislação anterior e o financiamento de modalidades olímpicas e de formação.

O clube também afirmou que não é contrário à regulamentação do mercado de apostas. A posição apresentada é que alterações dessa dimensão devem considerar a segurança jurídica, a proteção da confiança e o incentivo ao esporte.

Em atualização publicada em 30 de setembro, foi noticiado que o ministro Luiz Fux autorizou a participação do Flamengo em ações relacionadas à discussão sobre as bets no STF. A decisão permite a manifestação do clube no processo, mas não suspende automaticamente a medida provisória.

Boto alerta para possível perda de competitividade do futebol brasileiro

A preocupação da diretoria vai além do orçamento rubro-negro. José Boto também questionou os possíveis efeitos da medida sobre a capacidade dos clubes brasileiros de competir financeiramente com equipes de outros países sul-americanos.

Na avaliação do dirigente, a redução dos recursos disponíveis pode comprometer a qualidade dos elencos e dificultar a manutenção do nível competitivo do futebol nacional.

Boto citou a possibilidade de clubes argentinos ampliarem sua presença entre os protagonistas da Libertadores caso recebam investimentos que deixem de circular no mercado brasileiro.

O português ressaltou que a questão não envolve apenas o Flamengo. Para ele, equipes de diferentes portes podem enfrentar dificuldades, embora os efeitos financeiros não sejam necessariamente iguais para todos.

A preocupação encontra respaldo no peso econômico dos patrocínios do setor: segundo levantamento citado pela Reuters em 30 de setembro, as casas de apostas geraram cerca de R$ 1 bilhão em receitas publicitárias para clubes brasileiros em 2025.

Outros clubes ainda avaliam como reagir à medida

Enquanto o Flamengo levou a discussão ao Supremo, outros clubes brasileiros ainda estudavam as possíveis consequências da decisão e os caminhos para enfrentar as mudanças.

De acordo com a apuração da ESPN reproduzida na notícia de referência, a possibilidade de recorrer ao STF não havia sido discutida na reunião de clubes paulistas realizada na Federação Paulista de Futebol em 28 de setembro.

A avaliação naquele momento era de que as equipes precisavam compreender melhor os efeitos da medida antes de definir os próximos passos. Os clubes de menor porte, em particular, poderiam enfrentar dificuldades financeiras relevantes.

O debate também avançou no Congresso Nacional. Em 1º de outubro, foi noticiada a formação da comissão mista responsável por analisar a MP, com 26 integrantes previstos, entre deputados e senadores. O texto precisa passar pelo processo legislativo para continuar válido.

Quando as plataformas de apostas deverão sair do ar?

A MP nº 1.394/2026 foi publicada em 25 de setembro e entrou em vigor imediatamente, mas ainda depende de análise do Congresso Nacional.

O calendário estabelecido prevê três etapas importantes:

  • 5 de outubro, às 23h59: prazo final para os apostadores retirarem voluntariamente os valores disponíveis nas plataformas.

  • 6 de outubro, a partir da meia-noite: sites e aplicativos de apostas deverão ficar indisponíveis.

  • Até 120 dias: prazo constitucional de tramitação da medida provisória, observadas as regras de contagem aplicáveis, para que o Congresso decida sobre sua conversão em lei.

A medida também proíbe a publicidade e o patrocínio das empresas abrangidas por suas regras.

Para o Flamengo, o desafio imediato é administrar a incerteza sobre as receitas previstas sem comprometer os pagamentos e os demais compromissos assumidos.

As declarações de José Boto deixam clara a prioridade da diretoria: manter os salários em dia, mesmo que seja necessário negociar jogadores e reduzir a reposição do elenco. Ao mesmo tempo, o clube tenta levar ao debate judicial os efeitos que considera relevantes para o conjunto do esporte brasileiro.

A discussão, portanto, envolve duas frentes: a busca por alternativas financeiras para preservar o planejamento do Flamengo e a tentativa de contestar juridicamente uma medida que, na avaliação do clube, pode alterar de forma significativa o financiamento do futebol nacional.


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