sexta-feira, 10 de junho de 2022

Mudar o treinador era o problema mais fácil, mas não o único do Flamengo




Por Rodrigo Coutinho | Uol: Pronto! Depois das súplicas insistentes da torcida e muitos jornalistas, Paulo Sousa não é mais o técnico do Flamengo. O trabalho do português foi de fato bem frágil. Podemos enumerar os erros cometidos. Mas e o cenário a seu redor? Dorival Junior será a próxima vítima de um clube que simplesmente não tem paz desde a saída de Jorge Jesus?



O novo técnico rubro-negro será o quinto nome desde que o treinador campeão da Libertadores deixou o Mais Querido, em julho de 2020. Em 23 meses, o clube mudou de treinador quatro vezes. Em todas elas por demissão. A média é de cinco meses e alguns dias de permanência para cada profissional. Será que nenhum deles reunia capacidade para ocupar o cargo?

De Domènec à Paulo Sousa, passando por Rogério Ceni e Renato Gaúcho, o Rubro-Negro oscilou. Com os últimos dois teve mais momentos positivos do que negativos. Com Ceni, venceu um Brasileirão, uma Supercopa do Brasil e um Estadual, mas nem assim teve dias normais. O ambiente criado em torno da cadeira de técnico do clube mais popular do país é basicamente doentio.



A começar pela sensação geral de que o mesmo desempenho de 2019 e parte de 2020, com Jesus, vai ser retomado. Esqueçam! Aquela qualidade de futebol é vista em média a cada duas décadas no futebol brasileiro. É necessário que muitos fatores se combinem para que haja tamanha sinergia e alto nível entre atletas e treinador. O mundo real, infelizmente, não é esse.

Mirar aquele futebol é o começo do erro. Nem mesmo um retorno de Jorge Jesus daria tal garantia. É claro que o torcedor e a imprensa como um todo podem e devem cobrar o melhor de cada equipe. Por mais subjetivo que isso possa parecer, é totalmente saudável exigir um bom futebol.



Faz parte dos desafios de lidar com a opinião pública, mas é necessário respeitar o tempo certo para que cada metodologia se desenvolva. Algo que já seria improvável em cinco meses com condições normais de aceitação dos jogadores e respaldo da diretoria. O que dizer, então, quando essas duas coisas não acontecem?

Paulo Sousa foi contratado com a missão de rejuvenescer o elenco do Flamengo, cortar privilégios e mimos, além, é claro, de desenvolver a equipe dentro de campo. Não teve respaldo para isso em nenhum momento. A começar pelo questionável planejamento de renovação de contratos iniciada em novembro de 2021.



Essa postura dos responsáveis pelo futebol rubro-negro é facilmente percebida pela maioria dos jogadores, que seguem tendo o mesmo comportamento nocivo dos últimos dois anos.

Na maioria dos jogos falta concentração ao longo dos 90 minutos. Falta intensidade no momento defensivo. Num cenário de ajustes táticos iniciais, não há como desenvolver nenhuma ideia. O treinador que cobra de forma veemente acaba fragilizado pela forte influência dos atletas junto à diretoria e figuras da imprensa.



Os resultados negativos acabam vindo com mais facilidade, e a última parte do ''pacote'' vem: a fritura pública! O torcedor, quase sempre movido pelo placar final dos jogos, se manifesta contrariamente de maneira exacerbada. E vê profissionais, que mais se parecem ''parceiros de arquibancada'' com o poder da opinião, desenvolverem retóricas sem o menor embasamento para avaliar um trabalho. Verdadeiras perseguições ''inquisitórias'' são promovidas.

Entender que o cenário do Flamengo hoje vai muito além de uma troca de treinador, que desta vez foi necessária, é o ponto de partida para o clube tentar se pacificar. É necessária uma profunda reformulação no elenco também, mas antes disso é preciso mexer em toda a estrutura do futebol do rubro-negro. Já está mais do que provado que o sucesso de 2019 se deve principalmente a uma figura que não está mais lá.


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Imagem: Divulgação

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